Aparições no entorno do sumidouro

Quando criança, gostava de mirar uma árvore distante e caminhar até ela, quando sobre os campos verdejantes da fazenda de João de Osório. Aquele volume de terras fazia fronteira com o muro que dividia o quintal de meus avós e o campo. Um ferrolho enferrujado e uma pedra escorada eram as únicas dificuldades para vivenciar um pouco da liberdade que a cidade grande não oferecia.

Criaturas nefastas

No segundo barreiro daquele terreno, há um cajueiro centenário – do qual desde criança ouvi falar sobre estranhas aparições assombrosas e outras ocorrências. Lembro de uma delas em que me contaram que naquele cajueiro, um rapaz profundamente triste por ter sido abandonado por sua amada, resolveu suicidar-se, escolhendo aquele local para a ação. Saiu de casa e levou consigo uma corda comprida. O irmão desconfiado, o seguiu a certa distância. Viu o que o irmão pretendia e permaneceu escondido.

O rapaz desiludido amarrou bem a corda e colocou a forca no pescoço. Desequilibrou-se e daí a agonia começou. Alguns segundos depois, o irmão aparece correndo e com um facão, parte a corda, livrando o irmão da morte. Com o fôlego recuperado, disse ao irmão, que apesar de ter feito aquilo sentiu medo de morrer e havia desistido de tentar o enforcamento. Mas, viu quando várias criaturas estranhas apareceram pulando de galho em galho, como macacos, mas com expressões humanas. Eles mantinham um sorriso nefasto no rosto e apontavam para o chão dizendo: pula… Vai, pula agora! Até que veio um dos maiores e pelas costas o empurrou.

Apesar de não ter medo dessas coisas, sempre fui do tipo que imaginava a cena com certo realismo. Os contos assombrosos, assim como outros tipos – sempre guardam em si alguma lição de vida e a arte de contação nunca deveria morrer. Os contos sempre contam mais do que aquilo que a fantasia oferece e sua grande mágica acaba sendo o fascínio gerado na transição da verdade e da fantasia.

O caçador fantasma

Lembro também de minha mãe dizendo que quando criança. Estava com algumas amigas e um pequeno balaio no qual iriam pegar caju naquele mesmo pé. Ela adiantou-se pelo caminho e não muito distante, observou algo inacreditável aos seus olhos: agachado e fazendo pontaria com uma espingarda, ao lado de um arbusto chamado jurema – ela viu um antigo conhecido que havia falecido há mais de 10 anos. Trajando vestes rotas e encouraçadas, a assombração parecia bem concentrada em acertar algo que fisicamente, também não estava ali. Assustada, ela saiu correndo, deixando o balaio com alguns cajus que conseguira retirar. Ligeiramente chegou até as amigas que adiante vinham em sua direção. Eufórica, explicou o que acabara de ver e nenhuma delas voltou àquele lugar.

O homem de terno branco

Com um pouco mais de esforço, adiante do velho cajueiro acima citado, pode-se chegar a uma das mais conhecidas e antigas lagoas de Buíque, seu some é um tanto sugestivo “sumidouro”. E não é por acaso. Ali foram desovados vários cadáveres nos idos do coronelismo. E há testemunhos que afirmam ter visto, entre outras assombrações, um homem trajando terno e chapéu branco na beira do lago.

Reza a lenda que ali próximo viveu um coronel abastado de riquezas. Era um grande fazendeiro e por trás de um rosto simpático, escondia-se uma aura perversa. Contratava pessoas para trabalhar nos serviços agrários sob a proposta de pagamento ao término do serviço. Antes de contratar os empregados perguntava: Você sabe ler? Geralmente, os contratados eram de origem humilde e a única experiência que tinham era com o roçado, nunca haviam aprendido a ler e naturalmente respondiam: Não sinhô.

No dia do pagamento, o coronel altivo e bem vestido entregava ao empregado um bilhete e pedia para que o indivíduo fosse até certo local, uma velha casa em taipa onde vivia um de seus jagunços. Ao chegar, a pobre vítima entregava o papel ao traiçoeiro capanga que estava ali pronto para tirar-lhe a vida. Havendo consumada a ação – arrastava o corpo da vítima até a beira do lago, amarrava uma grande pedra ao cadáver e o atirava na água, saindo dali após vê-lo desaparecer nas profundezas daquelas águas turvas. A razão por tamanha crueldade? O coronel não gostava de pagar. E ainda há quem diga que vivia a mandar seus homens tomarem terras vizinhas e expulsar famílias delas para ampliar seus domínios.

Certa vez, em diálogo breve para contratar um novo agricultor. Ouviu o coronel sua resposta preferida: – “Não sinhô, eu não sei ler”. Porém, aquele não era como os demais. Era desconfiado por natureza. Mentiu para o coronel. E sim, sabia ler! Com certa dificuldade, mas o suficiente para seu entendimento. Assim, cumpriu seu trabalho e no dia de obter o pagamento acordado, recebeu o bilhete e a indicação de visitar o casebre de taipa onde aguardava-lhe o responsável pelo pagamento.

A maldição do vigário

No meio do trajeto, o indivíduo abriu o bilhete e assim estava escrito: “Esse aí é outro, mate-o e jogue-o na lagoa!”. Finalmente, tudo fez sentido. Agora ele entendia o que havia acontecido com alguns conhecidos seus que como ele, havia aceitado trabalhar para aquele coronel. No entanto, por motivo desconhecido, desapareceram. Na verdade, todos haviam sido assassinados. Voltando dali mesmo, o homem indignado foi ter com o vigário – contou-lhe tudo, deixando com ele o bilhete como prova. O clérigo com todo seu repúdio, amaldiçoou o coronel. Dizia ele que nenhum mal fica impune e o referido haveria de pagar alto preço pelo que fez.

Tempos depois, durante prolongada estiagem, as águas da lagoa baixaram a ponto de revelar os restos mortais dos antigos desaparecidos. Assim, das poucas pessoas que visitam a misteriosa lagoa. Há quem tenha visto a figura de um homem vestido em seu terno branco, fitando o horizonte. Talvez, à espera de algo que o liberte… Algo que ninguém sabe o que é.

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