Buíque, um livro de pedras

Conhecer a arte desse vale encantado
É fazer uma viagem nas veredas do tempo
Reconhecendo nas rochas, as finas curvas do vento
Absorvendo a ciência, mistura de tantas essências
No abismo profundo onde habita o silêncio.

Fez o tempo, ao longo das eras
Esculpir nos paredões das serras
As páginas desse livro de pedra
Onde a chuva, o vento e a terra
Emolduram portais e janelas
Encantando os olhos do mundo.

Veio o sol do horizonte sem fim
Colorir espinhos e rochas
Revelando a nudez da caatinga;
Coisa morta, mas cheia de vida.

Catimbau, feitiço de sonhos
Guanumbi do tupi: beija-flores.
Do Carneiro o ocre-alcobaça
Com sua própria escala de cores.

Quantos nomes coube a Buíque?
Ou em cada interpretação?
Ninho de cobras? Apito de fêmur?
Terra do sal? Ou será sal da terra?
Uiquizeiros do yby-uiqué?

Para muitos, a terra natal
Palco de sacrifícios e andanças
Estradas, poeira, lembranças
E alegrias vividas na infância.

Das memórias do Graciliano
Às sepiações do museu,
Correm vultos à biblioteca
Companhias do meu “eu”.
Quantos juntos sós?
Tantos sons sem voz,
Todos meus e seus.

É o tempo que sopra o passado,
Farfalhando as folhas dos livros,
Revelando heróis e inimigos.
Velhos parentescos e amigos
Sob uma fina camada de pó.

Dos primeiros artistas, a tinta vermelha
Conta histórias em breves memórias
Finda agouros e esconde tesouros.
São desenhos de gente e besouros.

Ah, esse sol do teu céu que saúda teu sal
Tempero albino a brotar da terra
De resquícios refinados por várias eras
De quando tudo nessa terra foi mar.

Mas o mar subiu para o céu.
Mergulhou num golfo de estrelas
Para então caber num olhar
Sem dar brecha a outra maneira
De compreender tudo que nada neste lugar:
A simples essência da mãe natureza.

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