E nasce, e morre, e retorna

Um súbito estalo e voaram todos os pássaros:
Carcará, coruja, jandaia e urubu!
Tingiram o oco do céu, desaparecera o azul.
Um amarelo dourado se abriu e o sol caiu.
Era o fim, era o início, era um novo sacrifício.

O vento fez a curva, tapou a respiração.
Amarelo virou laranja e o céu virou sangria.
Pincelou de rubro a caatinga e os espinhos de mandacaru.
Nos mouros pousaram urubus, arreganhando-se as asas,
Fazendo cruz, velando a luz, chamando as almas.

Morria o dia de tanto sangrar.
Com sinuosa cautela, surgia a treva num súbito olhar…
A lua encarava o mundo, o frio devorava tudo
E os fantasmas pairavam no ar.

A mãe-da-lua lamuriava três notas e uma tapa.
O vento se libertava, corria com o tempo na estrada
E o céu era um carrossel perdido no infinito.
Sapos, grilos e mosquitos, enquanto matavam e morriam
Regiam uma orquestra sinfônica.

Chegara a hora da noite,
Levada como num açoite.
A luz tingia a penumbra
Rasgara o vestido da lua
Que após despida, sumiu.

O horizonte de longe, resplandecia.
E quem diria! A noite que ontem ceifava o dia
Nos braços da luz morreria…
Sorrindo, pois sabia que em breve retornaria.

Dessa forma o azul abissal,
Pai do verde algaroba; Afinal,
Encontra o amarelo da aurora
E nasce, e morre, e retorna.

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