Escapou fedendo

Esse fato aconteceu no Recife, num dia corriqueiro. Uma estudante universitária seguia o curso de sempre, ao lado do irmão – ela num dos primeiros bancos, ao lado da janela, olhando o mundo passar.

Mas veio uma ânsia súbita, um rebuliço estomacal, com agudas furadas abdominais. Eram os sinais de uma tragédia pessoal na zona urbana. De repente um odor podre tomou conta do coletivo lotado.

Caretas embrulhavam-se a todo momento. Minha nossa, o que é isso? Cagaram! – disse uma moça bem próximo. Um vão vago foi se formando, os passageiros se espremiam para fundo do ônibus. O cobrador coitado. Não podia sair do canto; abriu bem a janelinha às suas costas para o ar circular melhor.

A autora da tragédia, desconfiada – tentava disfarça o quanto podia. Nem percebeu que a parada em que o irmão desceria, estava próxima. Ele mesmo estava incomodado com aquele mau-cheiro, mas nem suspeitava que vinha de sua própria irmã. Levantou-se, seu destino chegou. Olhou para ela e se despediu.

– Não! Por favor fica. – disse ela discretamente, enquanto era consumida por total desespero. Não desce agora… Por favor! – insistiu. Mas, foi ignorada com um franzido de sobrancelhas do irmão que logo, virou as costas.

Agora, era ela e a vergonha. Uma pessoa, sentou-se ao lado dela e comentou: “Minha nossa. Esse fedor parece ser por aqui” – enquanto isso, olhava para os lados e para baixo do assento. Alguns passageiros não suportaram, desceram antes do destino pretendido. Conforme o ônibus ia se esvaziando, apenas ela permanecia.

Olhando para a janela, desconfiada. Tentando lançar sua vergonha para o outro lado do mundo. Sonhando em desaparecer dali e materializar-se no banheiro de seu apartamento. Mas, não adiantava apenas desejar. Ela teria de encarar aquela situação e levantar-se daquele local há qualquer momento.

O cobrador, com um olhar de Sherlock Holmes e a boca torcida para um lado, tapava o nariz com uma das mãos, enquanto a fitava descaradamente. Sem dizer nada, sua expressão claramente dizia: Eu sei que isso vem de você!

Todos desceram. Pouco mais de dois metros a separavam do cobrador, que já havia perdido o senso da descrição e agora olhava como quem dizia: E aí, o que vai resolver?

O ônibus parou próximo à Universidade Católica de Pernambuco. Ela tomou coragem e desceu guiada pelo desespero, sem nem olhar para trás. Aliás, para trás ficou apenas a desagradável rima “o cobrador e o fedor”.

Beirando as calçadas, andando apressadamente com o casaco amarrado à cintura, adentrou na Universidade e trancou-se no banheiro.

Outras moças seguiam para o mesmo local e se depararam com a porta trancada. Abra a porta! Eu vi você entrando! Abra a porta! – gritavam as moças lá fora.

Ela, desesperada ignorava os gritos seguidos por xingamentos. Enquanto isso, esfregava freneticamente os fundos da calça melada, lavada na pia do banheiro feminino com água e detergente de mão. A vestimenta íntima teve de ser descartada. Para enxugar, grande volume de papel higiênico para absorver a umidade. O casaco voltaria a cobrir a área molhada. Era o mínimo que podia fazer.

As moças lá fora desistiram, após declamarem uma sequência de socos e palavrões no lado de fora. Meia hora depois ela saiu. Parte dos estudantes haviam ido para as salas de aula e assim, ela pôde sair.

Pegou outro ônibus direto para sua casa. Menos mal não ter sido o mesmo coletivo e aquele cobrador de expressão icônica.

Por descrição, não posso dizer o nome dela, mas se eu não esqueci dessa história que há uma década, ela mesma havia contato, imagina ela que a vivenciou.

Essa é uma história da vida real, que literalmente “acabou em merda”. Mas, como numa bela descarga – apesar da inusitada situação – deu para escapar fedendo.

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